sábado, 17 de dezembro de 2011

Morrer é lucro?

A convicção e postura cristãs diante da existência se baseiam em alguns postulados bem interessantes. Ei-los:

<< O mundo é maligno (1 João 5:19) >>
<< O corpo humano é "a carne do Pecado" (Romanos 8:3) >>
<< A vida é uma constante luta entre a carne e o espírito (Gálatas 5:16) >>
<< Estamos aqui de passagem, nosso lugar não é aqui (Hebreus 11:16) >>

Os cristãos primitivos, em resposta à existência, faziam referência ao enunciado apostólico: "Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens" (1 Coríntios 15:19). O escritor dessa interessante passagem, que faz-se crer que foi Paulo, o apóstolo, também expressou: "Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro" Filipenses 1:21.

De fato, a convicção de que a morte é um ganho era compartilhada por todos os cristãos. Eles queriam em tudo se assemelhar a Jesus como legítimos seguidores. Se Jesus se entregou à morte, eles também queriam se entregar. Havia até incentivo da parte dos líderes cristãos a que todos almejassem o martírio. Justino Mártir, no século II, foi um deles. Ele escreveu: 

— Já que não fixamos nossos pensamentos no presente não nos preocupamos quando os homens nos levam à morte. 

Essa exortação era comum aos cristãos: "Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas." (Colossenses 3:2). O próprio Paulo, o último dos apóstolos, escreveu qual era o seu desejo: 

— Quero conhecer a Cristo, ao poder da sua ressurreição e à participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte. (Filipenses 3:10). 

O martírio era algo muito desejado pelos primeiros cristãos. A participação nos sofrimentos de Cristo era chamado por eles de "batismo no sangue", um segundo batismo, em alusão às palavras de Jesus: "Podeis ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?" — Marcos 10:38.

O fervor da igreja primitiva era tanto que o martírio era considerado como sendo "o melhor batismo". Na vontade de serem considerados por Deus como "verdadeiros discípulos de Jesus", os cristãos se alegravam quando eram presos e condenados à morte. Policarpo, no ano 156, escreveu essas palavras:

— Eu te bendigo [Senhor] por me terdes julgado digno deste dia e dessa hora, digno de ser contado no número dos vossos mártires... guardastes vossa promessa, Deus da felicidade e da verdade.

Inácio de Antioquia, no ano 107, chegou até mesmo a escrever uma carta pedindo para que seus irmãos de fé não impedissem o seu martírio. Em um trecho da sua Carta aos Romanos, lemos:

—  Espero poder enfrentar com alegria as feras que estão preparando para mim, e peço a Deus que eu possa encontrá-las prontas a lançarem-se sobre mim. Se não quiserem, eu mesmo as instigarei para que me devorem num instante.

Ao nos depararmos com essas palavras, ficamos nos perguntando se cristãos ainda existem.

Ah, os séculos passam, e com eles também as belas certezas... A única coisa que parece não passar é o fanatismo, a hipocrisia, a intolerância, o abuso de autoridade em nome de um deus ou em nome de qualquer raio de doutrina . Bom, sempre foi fácil encontrar fanáticos, mas hoje em dia é bem difícil encontrar alguém que tenha a firme convicção de que morrer é mesmo um  lucro.  Hoje o que encontramos são os adeptos de que fazer igreja é que dá lucro. E o que mais se vê é crente preocupado com essa vida passageira, ansiando por prosperidade, fazendo seguro de vida, pagando carnezinhos de saúde tipo Unimed, e, o pior, pagando campanhas e sacrifícios — lê-se: colocar dinheiro no bolso do pastor — em troca de milagres e bençãos. E parece que ninguém percebe a gritante contradição em que vivem! Por que será?

Vamos lá. Assinale a alternativa correta:

a) Não se tem certeza realmente do que diz acreditar.
b) Não saber se depois de esticar as canelas se vai mesmo para o céu. (Oh, horror!)
c) Viver na Terra é muito bom! Eu adoro praia! E no céu não vai ter sorvete, nem sexo e nem chocolate! (Então... The heavens can wait!)
d) Por um masoquismo enrustido.
e) Os cristãos primitivos eram ignorantes, não sabiam do que falavam!
f) Nenhuma das alternativas ou todas as alternativas dadas acima.


Paz da ausência

5 comentários:

Zucatelli disse...

vc é muito bom!! seus textos são d+++++!!!!

Investigador disse...

Perfeito Capitão!
Como sempre digo até na Idade Média os católicos compravam indulgências para irem para o céu. Os os evangélicos fazem campanhas para ficarem ricos.
A fé dos cristãos primitivos é algo que nenhum evangélico hoje chega a ter...

Netanias Alves de Lima disse...

Pois é, Investigador, a fé cristã dos primeiros cristãos ficou lá nos três primeiros séculos. De lá pra cá, o que impera é a busca por glória e poder terrenos.

Um abraço.

Anônimo disse...

Caro Capitão, seu blog é mesmo demais. Tenho aprendido muito lendo as suas postagens. Você escreve de forma agradável, direta e engraçada, além de apresentar ótimas tiradas. Mas é uma pena que você não atualiza com frrequência esse espaço. Acesso todos os dias esperando ver as novas. Espero que você esteja bem. Um grande abraço.

Luis Aton

Luíza Valéria Dornelle disse...

adorei o seu blog!!! voce fala coisas que há muito tempo que eu queria ouvir!!! obrigaaaadaaaa!!