quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A vida sexual dos primeiros cristãos

Guarigione dello storpio e resurrezione di Tabita, de Masolino da Panicale.
Dediquei-me, na noite de ontem, a ler a Primeira Epístola de Pedro. À medida que ia lendo os capítulos e assuntos tratados, era-me impossível não lembrar dos inúmeros testemunhos dos primeiros cristãos. Quão diferente é o Cristianismo de hoje! Vejamos um flagrante:

- Semelhantemente [o escritor falava anteriormente sobre a submissão que os homens devem ao rei e ao patrão - ele evoca aqui o mesmo padrão de semelhança para as mulheres] vós, mulheres sede submissas a vossos próprios maridos, para que também, se alguns deles não obedecem à Palavra, pelo procedimento de suas mulheres, sejam ganhos sem palavra, considerando a vossa vida casta, em temor. (1 Pedro 3:1, 2)

A passagem dispensa interpretação. O apóstolo diz que o silêncio e a castidade das mulheres cristãs são procedimentos decisivos para a conversão dos maridos que "não obedecem à Palavra".

Será que o modelo original da mulher cristã era mesmo ficar em silêncio e se abster do contato sexual? No segundo capítulo, Pedro já tinha evocado o princípio da abstinência:

- Amados, peço-vos como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a alma. (2:11)

Que valor tinha para os cristãos a abstinência e a castidade? Pedro faz menção:

- Igualmente vós, maridos, coabitai com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais fraco; como sendo vós os seus co-herdeiros da graça da vida; para que não sejam impedidas as vossas orações. (3:7)

Que entendimento os cristãos primitivos tinham concernente à vida sexual no casamento? Era um entendimento segundo o princípio da abstinência. Se o casal é dado aos desejos sensuais, as orações são impedidas de chegar a Deus, ensinavam.

Vejamos agora, para bem nos acercarmos, o testemunho de alguns dos principais cristãos da igreja das origens:

- ... às mulheres lhes encarregavam a execução de todos seus deveres numa consciência sem mancha, apropriada e pura, dando a seus próprios maridos a consideração devida; e lhes ensinavam a guardar a regra da obediência, e a reger os assuntos de suas casas com propriedade e toda discrição. (Clemente de Roma, 30-100 d.C.)

Clemente exortava:

- Guiemos as nossas mulheres para o que é bom: que mostrem sua formosa disposição de pureza; que provem seu afeto sincero de bondade; que manifestem a moderação de sua língua por meio do silêncio; que mostrem seu amor, não em preferências partidárias, senão sem parcialidade para todos os que temem a Deus, em santidade.

Policarpo, no ano 135, escreveria tais recomendações:

- Ensinemo-nos primeiro a andar no mandamento do Senhor; e depois a nossas esposas também, a andar na fé que lhes foi dada e em amor e pureza, apreciando a seus próprios maridos em toda verdade e amando a todos os homens igualmente em toda castidade, e criando a seus filhos no temor de Deus.

A abstinência sexual, mesmo no casamento, era um sinal de que o cristão estava andando segundo o Espírito. Polícrates, no ano 190, escrevendo a respeito de um dos primeiros seguidores de Jesus:

- Falo de Felipe, um dos doze apóstolos, o qual foi repousar em Hierápolis. Falo também de suas duas filhas que chegaram à velhice sem casar-se. Sua outra filha também [casada], que passou sua vida sob a guia do Espírito Santo, jaz em Éfeso.

Não somente a virgindade era sinal de uma vida de dedicação ao Senhor, mas também a castidade no casamento era sinal de que o cristão vivia na dependência do Espírito Santo.

Seria suficiente ler tais aportes para sabermos acerca da sexualidade dos primeiros cristãos? Clemente de Alexandria, em 195, também: "Suas esposas foram com eles, não como esposas, senão como irmãs..." O que confirma o mandamento expresso por Paulo na Primeira Carta aos Coríntios:

- Que os casados sejam como se não fossem casados. (7:29)

Você vê esse comportamento nos ditos cristãos de hoje? Não, não se vê. Antes, os pastores dão incentivo exarcebado a que os jovens se casem tendo em vista o "aumento do rebanho". Mas quão diferente eram os primeiros cristãos! Justino Mártir, no ano 160, exaltava-se:

- Entre nós há muitos e muitas que, feitos discípulos de Cristo desde a meninice, permanecem virgens até os sessenta e os setenta anos... e eu me glorio que se os posso mostrar de entre toda raça humana!

E Atenágoras, em 175, repetia o que tinha aprendido dos apóstolos: "O mero pensamento e desejo de coito nos aparta da comunhão com Deus." O próprio Atenágoras testemunharia acerca dos primeiros cristãos:

- E até é fácil achar entre nós muitos homens e mulheres que chegaram virgens até sua velhice com a esperança de atingir assim uma maior intimidade com Deus.

O cristão Metodio, do ano 290, dizia ter o verdadeiro gozo:

- A ti consagro minha pureza, ó Divino Esposo! E vou a teu encontro com o lustre brilhante em minha mão. Abandonei os tálamos e palácios de casamentos terrenos por ti, ó Divino Mestre! Resplandecente como o ouro; a ti me acerco com minhas vestimentas imaculadas, para ser a primeira em entrar contigo na felicidade completa da câmara nupcial.

Interessantes palavras de Metodio. Ele continua:

- Esqueci minha pátria arrastada pelo encanto ardente de tua graça, ó, Verbo divino! Esqueci os coros das virgems colegas de minha idade e a felicidade de minha mãe e de minha raça, porque tu mesmo, tu, ó, Cristo!, és tudo para mim.

Que pensais agora a respeito dos primeiros cristãos? Não dá, evidentemente, para compará-los com os ditos cristãos de hoje, não é mesmo? É Justino Mártir, no ano 160, quem diz:

- Não contraímos casamento senão para a procriação e educação dos filhos ou, se renunciamos a ele, vivemos em perpétua continência.

Difícil?

O que você acabou de ver é apenas uma palhinha do gritante distanciamento que se encerra entre os primeiros cristãos e a atual Cristandade. Então, caro leitor, da próxima vez que um desses ditos cristãos lhe vier com "sermão de moral", lembre-se do que você acabou de ler: é um ótimo colírio para os olhos dos cegos e hipócritas.

Paz da História

7 comentários:

Alê e Mi disse...

Eles não fazem nada do que Jesus ensinou e ainda se apresentam como donos da moral!!!! Nem a moral cristã eles seguem!!! Parabéns, Net!!

BENÃO disse...

Net, quem segue isso hoje em dia?? verdade pura! não existem mais cristãos! muito bom o seu texto

Sueli disse...

Muito bom esse texto! Todos querem ir para o céu mas ninguém quer ser cristão como antigamente. Perto dos primeiros cristãos, o que vemos hoje em dia, é rir pra não chorar!

Rafael Bukin disse...

casar pra viver como dois irmãos, que graça tem?? se for pra transar só pra ter filhos, o gozo me daria a culpa

isso não é vida

quer dizer então que Deus me dá a possibilidade do prazer mas não quer que eu goze?

os cristãos não vivem isso porque eles mesmos sabem que isso é um absurdo

parabéns pelo seu blog

Lucas Ribeiro J. T. disse...

Seus textos são muito esclarecedores! Parabéns!!

André Feltrin disse...

li esse texto com assombro!! nossa, quanta informação é escondida das pessoas!! e esse povo vai na igreja se achando que são cristãos!!!! parabens pelo blog!!

Dinorah Leonte disse...

Querido Net, é sempre um prazer ler o que você escreve. Essa sua postagem foi um tanto difícil de eu digerir, mas não tenho outra opção que não me render ao que aqui você apresentou.