sábado, 25 de junho de 2011

Troy Perry, um consumado profeta da inclusão

Sim, no contexto da fé, as igrejas inclusivas podem ser entendidas como uma manifestação da aprendizagem ou revelação divina. Saiba como e porquê.


Escrevi há poucos dias um texto (publicado ontem nesse blog) problematizando a Teologia Inclusiva. E fiz ao levantar a perspectiva da bissexualidade. Mas nesse presente tópico farei apontamentos que justificam plenamente a Teologia Inclusiva. E assim farei pelo viés da compreensão do que os profetas representam na história da fé.

Primeiro apontamento: Se há uma linearidade histórico-bíblica, ela não é ortodoxa e nem é o da letra. Numa tradução direta: não adianta citar versículos bíblicos para justificar ou refutar uma ideia ou prática, pois o próprio Deus mostrado na Bíblia não se prende a uma dada scriptura, ele transcende a própria História. E, segundo apontamento: O Deus revelado nas Escrituras não atende a nenhuma ortodoxia, por mais que os religiosos queiram fixar parâmetros doutrinários. Se Deus tem uma teologia, a dele é absurdamente herética. Ditos esses dois apontamentos (blasfêmias a certos ouvidos), vamos às provas.

Qual é o lugar dos profetas na história da fé? O de revolucionar, de desdizer e contradizer o que antes fora dito, sempre descortinando um olhar que seja mais justo e compreensivo da relação humana com a divindade. Posto que, a vocação do profeta é o de ser maldito para os que estão presos às regras e engessados na tradição. Quatro grandes exemplos: Isaías, Jeremias, João Batista e Jesus

Se aparecesse hoje alguém inteiramente pelado "pregando a palavra", seria acaso bem recebido entre os religiosos? Temo que nem pelos não-religiosos. A primeira coisa que a maioria faria seria chamar a polícia. Mas imagina então um profeta andando e balançando as bolas à mostra durante três anos no meio do povo! E isso há quase dois mil e oitocentos anos! Esse foi Isaías. E por ordem de Deus:

- "Vai, solta de teus lombos o pano grosseiro de profeta e tira dos pés o calçado". Assim ele o fez, indo despido e descalço. (Isaías 20:1 a 3)

Depois de três anos pregando e andando pelado, Isaías foi preso e serrado ao meio pelos ortodoxos da Lei. Ora, Deus fez roupa pra Adão e Eva pra quê? E Levíticos 20 não é claro quanto à proibição da nudez? Com base na sola scriptura, Isaías foi condenado, torturado e assassinado.

Se aparecesse hoje alguém dizendo que Paulo não escreveu pelo Espírito em muitas coisas, seria acaso bem recebido? Certamente que seria chamado de herege e expulso de imediato. Mas isso só seria um dejà vu na história da fé. Nada mais que isso. Pois, bem:

- Nunca falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios. (Jeremias 7:22)

Onde já se viu confrontar os homens da Lei dizendo que Deus nunca falou com Moisés e nada ordenou acerca de holocaustos ou sacrifícios? Onde é que fica então a autoridade de Moisés e a utilidade dos levitas? Jeremias pagou caro por sua "heresia": foi apedrejado até à morte pelos sabichões da ortodoxia.

Falta-me falar de João Batista e de Jesus. Mas, antes de eu adentrar-me no relato do que foi considerado como "o maior de todos os filhos das mulheres" (Mateus 11:11), aqui deixo anotado: tendo passado muitos anos após as mortes de Isaías e de Jeremias, ambos foram reconhecidos e canonizados pelos filhos daqueles que os mataram, fortes indicativos de que, o que hoje é acusado de heresia, amanhã é cultuado como ortodoxia. Assim dito, vamos ao nosso terceiro grande exemplo.

Ele pregava no deserto, se vestia com pêlo de camelo, usava um cinturão de couro em volta dos rins (indicativo de rigoroso ascetismo) e comia gafonhoto e mel sivestre. Foi chamado de endemoninhado pelos chefes religiosos. E só podia mesmo ser endemoninhado, pois, como João Batista podia falar de Deus se ele era descaradamente abominável? Anota aí: usar pele de camelo é uma abominação (Levítico 11:4). Os fariseus deram graças a Deus quando souberam que a cabeça de João Batista foi exibida numa bandeja.

O leitor atento e esperto já entendeu bem a moral da história. Mas é possível que alguma coisa tenha escapado. Façamos, pois, uma consideração em acréscimo.

Os profetas tinham discursos e práticas que contrariavam a "Bíblia" dos religiosos. O único guia de fé e prática dos profetas era a busca da justiça. O conceito de "palavra de Deus" nos profetas não tem nada a ver com o que muitos chamam hoje de "Bíblia". E o profetas pensavam em Deus à parte dos líderes religiosos e da Lei de Moisés. Veja só o flagrante:

- Não saireis da entrada da tenda da revelação para que não morrais; porque o azeite da unção de Jeová está sobre vós. Fizeram conforme a palavra de Moisés. (Levítico 10:7)

- Não por força nem por violência, mas por meu Espírito, diz Jeová dos exércitos. (Zacarias 4:6)

Notastes? Em Moisés vemos o Espírito (tipificado pelo 'azeite da unção') agindo pela força por meio da chantagem ('para que não morrais'). Porém, no profeta Zacarias, o Espírito não força a ninguém e nem usa de violência. Você acha que os religiosos deixaram Zacarias anunciar a palavra em paz? (vide 2 Crônicas 24:17-25.)

Por qual razão os profetas foram mal compreendidos, perseguidos, expulsos e mortos? Devido ao caráter revolucionário que eles tinham e à mensagem libertária que eles pregavam. A compreensão profética é precisamente a de romper com a Escritura, com a tradição e com as regras até então consideradas como sendo de "lei eterna". E aqui, chegamos à figura mais inquietante e incompreendida da História: Jesus.

Jesus dizia ter vindo pra cumprir a Lei (Mateus 5:17), mas as atitudes dele diziam coisa bem diferente. Na prática, Jesus não estava nem aí para a Lei. Ele mesmo evocou a memória de Oséias (outro profeta que deu muito o que falar aos religiosos), contrariando toda as muitas regras e requisitos da Lei, ao dizer: "Misericórdia quero e não sacrifícios" (Mateus 12:7; Oséias 6:6).

Posicionando-se na contramão da Lei, Jesus usou seus discípulos para fazer chacota dos escribas (os que publicavam as "Escrituras"), dos saduceus (os teólogos da época) e dos fariseus (os líderes conservadores): vide episódio da colheita de espigas de trigo num dia de sábado (Mateus 12:1) e a justificativa non-sense que ele deu à falta de purificação ritual de seus discípulos (Mateus 15:20). Jesus estava pouco se importando com os conceitos religiosos da sua época, até mesmo para aquilo que os religiosos tinham como Santas Escrituras. Jesus colocou a liberdade e a dignidade humana acima da Lei, acima de qualquer código (Marcos 2:27). Na verdade, Jesus se apresentou como um novo início da compreensão da fé: "Porque os profetas e a lei tiveram a palavra até João [Batista]" (Mateus 11:13).

Que podemos apreender de todos esses indicativos? Ora, o cristão que se fia na Bíblia como "única regra de fé e conduta" está claramente em maus lençóis. Pois, exatamente no dia que se chama hoje, Deus pode estar falando exatamente o contrário de tudo o que está escrito. E você, crente fariseu, onde é que você fica?

Em defesa da Teologia Inclusiva, eu não preciso sequer tratar do significado semântico de malakoi, de arsenokoitai e nem dizer que abominação no original indica tão somente "impureza ritual". Eu dispenso tudo isso. Só preciso apontar que, se existe um Deus, ele não cabe em nenhum livro sagrado, que ele está pouco se lixando para os meus e os seus preconceitos. E, se a Bíblia tem algum valor, ela o tem em mostrar que Deus não para no tempo e que ele mesmo está aprendendo a ser Deus.


Paz dos profetas

3 comentários:

BENÃO disse...

S U R P R E E N D E N T E ! ! !

NÃO TENHO NEM PALAVRAS...

Anônimo disse...

Prezado Netanias, este é um dos seus textos que mais mexeram comigo. Não propriamente pela questão da teologia inclusiva, mas pela abordagem firme e tranquila que você fez dos profetas da Bíblia. É algo que nunca tinha visto ou ouvido de nenhum expositor. Você é uma luz nesses tempos de tanta confusão e tantas teorias. Deus te abençoe cada vez mais. Lucas Allison - PR

Anônimo disse...

Quem é Troy Perry?