- Eu posso me casar com um homem e com uma mulher?
Foi a pergunta que me fez um amigo. Só recentemente é que ele assumiu - apenas para alguns amigos - sentir atração sexual tanto por mulheres quanto por homens (embora ele garanta gostar mais de mulheres).
A normalidade é uma convenção cultural imposta socialmente pela Igreja, pelo Estado, pela família e pela escola. O que é normal? É aquilo que segue a norma. E as normas não são naturais; são apenas regras criadas para regulamentar os corpos e os espaços sociais. Deixe cada um decidir seguir sua própria orientação. O que veríamos?
Interessante notar que à medida que os homossexuais ganham visibilidade e aceitação na sociedade - ao ponto de surgir 'igrejas inclusivas', o número de homens e mulheres que assumem a bissexualidade aumenta. Não é preciso pensar muito para perceber o que realmente motiva a homofobia.
Eu vejo com bons olhos o surgimento das igrejas que fazem uma leitura pró-aceitação de gays, lésbicas, travestis e trans. Apesar de não concordar com a visão fofa-e-tudo-de-bom que fazem de Jeovino, desejo que cada dia surjam mais dessas igrejas. Quanto mais, melhor!
Mas até onde vai a chamada inclusividade que tanto pregam?
Será que um bissexual é bem-vindo nesses novos cultos? Os adeptos dessas igrejas dizem que sim. Mas em que termos? Se o individuo bissexual crente quiser expressar plenamente sua orientação, ele terá que recorrer a um duplo casamento ou então viver em franco adultério: casar-se com um homem e pular a cerca com uma mulher - ou vice-versa.
Mas imagina uma cerimônia de casamento em que um homem está de mão dadas com uma mulher e com um outro homem. Imaginou? Agora tente encontrar versículos bíblicos que justifiquem a cena. Encontrou?
Bissexuais não tem vez no céu de Jesus. Nem no cu do Jeová. Uma igreja realmente inclusiva teria que dar um bom jeito na Teologia. Mas isso seria o fim da "sagrada monogamia" e a sacralização do ménage à trois. A poligamia seria o próximo passo?
Paz do céu fechado
Crédito da imagem: Davi, de Michelangelo.

7 comentários:
Cara... vc vê além dos outros!! Vc sempre surpreendendo...
Grande abraço.
interessante, Net!!!
se Jesus não aprova a sensualidade, mesmo dos casais heterossexuais cristãos, ele iria aprovar o sexo gay e o bissexual? complicado, né?
beijo
Sueli,
confira o próximo post. É uma contraparte a este.
Beijo.
Olá, Netanias. Tudo bem?
Quero parabenizar você pela originalidade de suas reflexões. Embora sua linguagem choque às vezes, tenho que concordar com muitas de suas colocações. Sou membro de uma igreja inclusiva e também mantenho um blog com essa temática. Confesso que a bissexualidade sempre foi um desafio pra mim e seu texto veio confirmar isso.
Valeu pelo texto, aguçou ainda mais a minha percepção e a urgência em se responder (resolver!) uma questão tão polêmica para as igrejas inclusivas.
Abraços!
Alexandre Feitosa
Alexandre Feitosa,
obrigado pela sua visita e pelo seu comentário.
Percebi pelas suas palavras que você é uma pessoa de paz e de espírito cordato. O mundo precisa de pessoas assim como você.
Irei visitar o seu blog. Farei isso depois de tomar o meu café.
Abraços.
Caro Netanias, conheci seu blog hoje e vim parar nesse texto. Me desculpe a franqueza, mas sua reflexão já parte de um equívoco típico do senso comum, que é o de ver a bissexualidade como sinônimo de bigamia. Multiplicidade de opção não significa multiplicidade de escolha. Ora, se nesse debate acerca do sexo estivéssemos falando de raça, um hetero ou homossexual que se declarasse não-racista teria que se casar com uma pessoa branca e outra negra, ou ficaria subentendido que ele PODERIA se casar qualquer uma das duas? Da mesma forma, por favor saia do preguiçoso senso comum de que a bissexualidade tem como premisa básica o envolvimento simultâneo com duas pessoas...
Caro Ivan,
é sempre de suma importância observar ao que o texto se refere. O "detalhe" que lhe escapou é que o texto trata da bissexualidade em função do comportamento cristão.
Como é que um cristão de orientação bissexual pode viver a sua sexualidade? A monogamia permite a plena expressão de tal orientação? Se você disser que "sim", então apresente tal maravilhosa fórmula. Muitos lhe agradecerão.
O fato é que o Cristianismo é porta-voz da monogamia. Na hipótese de um homem cristão bissexual se casar com uma mulher, o princípio da monogamia só seria guardado se ele aleijasse sua inclinação homoafetiva, que pode se manifestar sem data e nem hora marcada... A impossibilidade salta aos olhos. Ou você acha que o casamento impede de haver outras paixões? É preciso muito idealismo para acreditar em tamanha tolice.
E já que você falou de "envolvimento simultâneo com duas pessoas"... A bissexualidade comporta ou não comporta a possibilidade de "envolvimento simultâneo com duas pessoas"? Claro que sim. E como isso seria expresso na praxis cristã? Impossível, a não ser que a monogamia perca o status de sagrado.
Atenciosamente,
Netanias Alves de Lima
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