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Fantoche Livre

Nome: Netanias Alves Lima
Local: São Carlos / Jaú, SP, Brazil

A carta imprevisível do seu baralho.

Sábado, Outubro 29, 2005

Eu e a cigana

(Essa me aconteceu ontem, por ocasião de um passeio no centro da cidade.)

– Homem, deixa eu ler sua mão? – o pedido veio-me com um ponto de interrogação quase que apagado, dado que ela já foi agarrando meu braço, e, com incrível leveza, me arrastando para a sombra de uma árvore.
‘Céus! É hoje! Vou ver o que ela tem a me dizer’, tomei, relutantemente, a decisão . Ela me pareceu ser de uns cinqüenta e poucos anos. Estava com trajes a rigor e trazia, no rosto, aquela pintinha verde.
– Se eu ler o teu passado e o teu futuro, tu deixa um trocado pra mim?
– Se você conseguir ler o meu passado e o meu presente, eu te darei um trocado. – assenti firmando o contrato, mas bem certo de quem riria por último.
Abaixamos-nos debaixo da árvore e estendi a minha mão aberta. E, assim, a cigana começou:
– As coisas não estão indo bem... pessoas tentam te derrubar, gente invejosa, que não gosta da sua sorte. – ela falava numa voz seca, mas meia velada. Não dava bem pra saber ao certo se ela afirmava ou se perguntava. – Você sente sempre tonturas...
– Oh, não. Estou sempre muito bem. – interrompi.
– Mas tem gente de olho gordo que não quer que você seja feliz... Você é casado ou solteiro?
– Sou solteiro. – por pouco foi que eu não disse que era casado e pai de cinco filhos, só para ver o que ela iria falar.
– Eu vejo... duas linhas na sua mão. Tem duas mulheres na sua vida. Uma loira e uma morena. Qual das duas você prefere?
– Nenhuma.
O olhar dela deixou entrever um desnorteamento. Mas sem perder a pose, fez uma nova investida, agora numa abordagem mais direta:
– Pegaram uma roupa sua e fizeram um trabalho com dez velas vermelhas, e eu posso desfazer esse feitiço. Se eu desfizer a bruxaria – enquanto falava ela tirava dentre os seios uma pequena bolsa, bem sujinha, cheia de pedrinhas – você coloca R$ 20,00 na mão da vó? – disse balançando a encardida bolsinha.– Eu desfaço o trabalho que fizeram contra você, com essas pedrinhas... – eu não consigo agora me lembrar direito do que ela falou das ditas pedrinhas.
‘Olha só o 71 dessa cigana!’, eu pensava enquanto ela dizia palavras e frases sem qualquer nexo. Nesse ínterim, uma cigana bem moça, duns 19 anos, que me pareceu ser filha da velha, se aproximou exibindo uma nota de cinqüenta que tinha acabado de ganhar... Mostrou a nota e me disse apontando para a velha:
– Ela desfaz tudo certinho. – dizendo isso se retirou.
Unf!, fiquei sem entender qual era o babado da moça.
– Colocaram seu nome numa sepultura para você morrer louco. – disse-me a velha. – Mas eu desfaço o feitiço. Agora com a sua mão direita pegue R$ 20,00 e coloca na mão da vó.
– O quê?!? – eu não sei por quê, mas senti algo de hipnótico na maneira como ela deu a ordem.
– Pegue o dinheiro e coloque na minha mão.
– Não vou te dar nenhum dinheiro, por que você não acertou nada.
– Não acertei? – agora ela falava em um tom meio irado e com estranho desdém. – A pomba-gira viu tudo.
– Não, você não acertou nada. E o nosso trato foi de que eu lhe pagaria somente se você acertasse. Mas você...
– Você não quer me dar o dinheiro? Sua vida terá um atraso.
O rosto da cigana agora perdera a calma e deixava transparecer raiva e frustração.
Que cena interessante! Comecei a rir. Do meu cinismo e da cara da cigana. A peça chegara ao fim, e a velha estava indignada. Quando ela percebeu que eu ía embora com meu bolso a salvo, esbravejou:
– Então que a desgraça te acompanhe!
Aí é que eu ri pra valer. Que coisa mais divertida! Eu não me agüentava de tanto rir. Subi a avenida, rindo que nem bobo.

Que mundo insólito esse nosso! Pobres humanos, pobres diabos. Ah ha-ha.
Como é bom quebrar a rotina. É, e agora eu tenho uma opção a mais de passatempo: descobrir quem é a 'loira' e quem é a 'morena'. Tsc, tsc.

Pos Scriptum: Sabe, da próxima vez que eu avistar uma dessas ciganas, escreverei na palma da minha mão umas merecidas palavrinhas, e, depois irei ter com ela. Imaginem como vai ser divertido. Olha, essas pilantras só perdem mesmo para o Edir Macedo e seus metralhas. Putz! R$ 20,00 é lá ‘um trocado’?!?

Quarta-feira, Outubro 26, 2005

Ah, se não fosse você



Minha perdição!

(Eu não sei quem fez este lindo quadro. Se vocês souberem, desde já sou grato pela informação.)

Sábado, Outubro 22, 2005

Aniversário

De aniversário, o que gosto mesmo é do bolo, daqueles com muito glacê. E também do refrigerante, claro, para não engasgar. Bom, também gosto de presentear o aniversariante, isto é, quando o tenho em alta estima. Ah, e gosto de observar todos os convidados, e, inclusive, os penetras. Esses últimos são os mais interessantes. Pois é, quando vou numa festinha e não identifico nenhum penetra, eu saio com uma forte sensação de que algo estava faltando. Festa que é festa tem que ter pelo menos uns dois bicões.

Em festa de aniversário, coisa legal também é observar as pessoas se despedindo: 'Ai, eu posso levar um pedaço de bolo para o meu namorado?' (a cretina ficou na festa com um fulaninho qualquer e depois quer limpar a consciência sujando de glacê o nariz do namorado), 'Posso levar um pedacinho para a minha mãe? Ela não pôde vir por que está doente' (numa dessas a 'mãe' nem sabia do babado) ou então 'Vou levar um pedacinho para o meu cachorrinho. Posso?' (sem comentários). Eu gosto de ir a festinhas comemorativas só para ver esse tipo de coisa acontecer.

(Ah, eu tenho que falar das festinhas da gentinha universitária. Você é convidado para a festa e vai naquela expectativa... Mas, chegando lá, você só encontra pinga, batida e outras coisas feitas para serem vomitadas. Já fui a muitas festinhas assim. Não tenho nenhuma saudade.)

Bom, por que estou escrevendo essas coisas? Pois é, o tempo passa mais rápido que os ponteiros do meu relógio. A razão deste post é que o Fantoche Livre faz hoje 1 ano de existência, e eu quase ia me esquecendo. É, se bem que não sou lá de comemorar aniversário. Mas tudo bem. Já que é pra comemorar, vamos nessa. Mas não me obriguem a cantar aquela musiquinha idiota que todo mundo faz questão de cantar. ‘Tá bom, podem cantar. Mas, por favor, sem bater palminhas. Êta povinho sem imaginação!

Quinta-feira, Outubro 20, 2005

Enquanto o mundo não se acaba



Recebi esta imagem, via rede, como um grande presente. Na verdade, trata-se de um quadro, ‘El Guitarrista’, obra de Justin Bua. O que eu mais gosto é da cara do sujeito. Vejam só como ele está todo preocupado enquanto o mundo está indo para o beleléu (será que estou vendo coisas?).

Resolvi postar a imagem do quadro de Bua por ser algo que bate em cheio com a visão que eu tenho das coisas. Pode parecer um pouco estranho a você, mas o que move meus passos é o sentimento de que já estou na ante-sala do necrotério. Um sentimento bastante sublime, eu diria. Bom, como expressar o que sinto em palavras? Tentem imaginar a Ação e a Complacência de mãos dadas. Ou então imaginem o Entusiasmo e o Desencanto rindo juntos enquanto bebem uma boa geladinha. É por aí.

P. S.: Hmm... o mundo está indo mesmo para o buraco. Sei que isso não é nenhuma novidade. Mas, para quem tem alguma dúvida, fica aí o toque: procure ler a edição da Super Interessante desse mês. Achei a reportagem fantástica. Eu li e fiquei bastante contente.

Domingo, Outubro 16, 2005

Abstractu - II

A arte não requer meditação, ela não clama pelos solilóquios do pensamento. Antes, ela requer o vigor dos impulsos, da divagação solta das contradições, do fluxo das paixões não entendidas. Eu não leio para ordenar meus pensamentos. Pelo contrário, eu leio para tumultuar o que em mim há de plácido, de organizado, de estável. Pois a minha busca está sempre em trazer à tona o que está livre em mim, em atravessar as rochas que soterram a volúpia da imaginação.

Quinta-feira, Outubro 13, 2005

Batatinha frita com chiclete

Já perdi a conta das vezes que ouvi isso vindo de alguns queridos amigos: ‘Por que você não volta para a Academia? Você não para mesmo de ler e nem de escrever. Então por que não unir o útil ao agradável? Você deveria estar escrevendo a sua tese’. Bom, eu agradeço a preocupação que têm por mim. Mas bem que poderiam ser mais felizes nas palavras, né?

Pra começar, eu não ‘devo’ nada. E outra, eu não estou atrás de nada que seja ‘útil’. Eu escrevo e leio por uma necessidade que não tem nada a ver com títulos e nem com bolsas financiadas pela Ford, pela Rockefeller ou pela Open Society.

‘Tá bom. Respondi meio que rispidamente. Desculpem-me. Mas vamos lá. Eu só escrevo aqui quando estou sem qualquer inspiração nas cordas, quando não consigo avançar em alguns compassos, ou quando um leit motiv teima em ficar nas pontas dos dedos. Mas há casos, raros, é verdade, em que escrevo simplesmente por que estou de saco cheio.

Domingo, Outubro 09, 2005

Abstractu - I

Quando a Música torna-se um instinto, todos os demais instintos são suplantados; até mesmo o da autoconservação.

Terça-feira, Outubro 04, 2005

Eterna Musa



Essa mulher, essa mulher...

Linda, encantadora, dedicada, discreta, inteligente e sábia. Eu poderia dizer muito sobre esta linda mulher, e, sobre o quanto ela significa para mim. Só para vocês terem uma idéia: foi ela quem me ensinou a tocar guitarra e quem me encaminhou no mundo dos livros (em outras palavras, ela é a minha razão de viver). E o melhor de tudo: foi ela quem me colocou nesse planeta estranho (urgh!).

Bom, já que estou apresentando a minha mãe para vocês, vou lhes contar algo a respeito dela que me deixa pra lá de Bagdá. É que vez por vez ela arranja um tempinho para ouvir música comigo. É demais. A nossa última apreciação foi T-Bone Walker, um dos gigantes do blues. Ah, e quando ouvimos rock então?

Ela é admiradora do Jethro Tull, do Queen, do Uriah Heep – particularmente do álbum Look at Yoursef, onde David Byron faz umas perfomances vocais que são simplesmente de arrepiar! –, do Deep Purple, bem como de toda banda que apresenta eméritos vocalistas (e isso tem lá uma forte justificativa: mamãe gosta muito de cantar, sendo que, motivo de orgulho para mim, ela até já ganhou concurso de música gospel).

Pois é, sempre quando ouço algumas de minhas bandas preferidas, ela me pede para colocar no ‘repeat’ certas músicas. Ontem mesmo, quando ouvíamos Queen, nem sei quantas vezes o Freddie Mercury teve que cantar Bohemian Raphsody. ‘Quero ouvir de novo... que voz! Como é que ele consegue?’ Ouvir música junto com minha mãe é algo mesmo incrível.

Quem me conhece sabe que eu passeio em nuvens quando estou na companhia de pessoas que muito amo e admiro. Imagine então quando se trata da pessoa que eu mais amo!

Mamãe, eu te adoro!