Eu e a cigana
(Essa me aconteceu ontem, por ocasião de um passeio no centro da cidade.)
– Homem, deixa eu ler sua mão? – o pedido veio-me com um ponto de interrogação quase que apagado, dado que ela já foi agarrando meu braço, e, com incrível leveza, me arrastando para a sombra de uma árvore.
‘Céus! É hoje! Vou ver o que ela tem a me dizer’, tomei, relutantemente, a decisão . Ela me pareceu ser de uns cinqüenta e poucos anos. Estava com trajes a rigor e trazia, no rosto, aquela pintinha verde.
– Se eu ler o teu passado e o teu futuro, tu deixa um trocado pra mim?
– Se você conseguir ler o meu passado e o meu presente, eu te darei um trocado. – assenti firmando o contrato, mas bem certo de quem riria por último.
Abaixamos-nos debaixo da árvore e estendi a minha mão aberta. E, assim, a cigana começou:
– As coisas não estão indo bem... pessoas tentam te derrubar, gente invejosa, que não gosta da sua sorte. – ela falava numa voz seca, mas meia velada. Não dava bem pra saber ao certo se ela afirmava ou se perguntava. – Você sente sempre tonturas...
– Oh, não. Estou sempre muito bem. – interrompi.
– Mas tem gente de olho gordo que não quer que você seja feliz... Você é casado ou solteiro?
– Sou solteiro. – por pouco foi que eu não disse que era casado e pai de cinco filhos, só para ver o que ela iria falar.
– Eu vejo... duas linhas na sua mão. Tem duas mulheres na sua vida. Uma loira e uma morena. Qual das duas você prefere?
– Nenhuma.
O olhar dela deixou entrever um desnorteamento. Mas sem perder a pose, fez uma nova investida, agora numa abordagem mais direta:
– Pegaram uma roupa sua e fizeram um trabalho com dez velas vermelhas, e eu posso desfazer esse feitiço. Se eu desfizer a bruxaria – enquanto falava ela tirava dentre os seios uma pequena bolsa, bem sujinha, cheia de pedrinhas – você coloca R$ 20,00 na mão da vó? – disse balançando a encardida bolsinha.– Eu desfaço o trabalho que fizeram contra você, com essas pedrinhas... – eu não consigo agora me lembrar direito do que ela falou das ditas pedrinhas.
‘Olha só o 71 dessa cigana!’, eu pensava enquanto ela dizia palavras e frases sem qualquer nexo. Nesse ínterim, uma cigana bem moça, duns 19 anos, que me pareceu ser filha da velha, se aproximou exibindo uma nota de cinqüenta que tinha acabado de ganhar... Mostrou a nota e me disse apontando para a velha:
– Ela desfaz tudo certinho. – dizendo isso se retirou.
Unf!, fiquei sem entender qual era o babado da moça.
– Colocaram seu nome numa sepultura para você morrer louco. – disse-me a velha. – Mas eu desfaço o feitiço. Agora com a sua mão direita pegue R$ 20,00 e coloca na mão da vó.
– O quê?!? – eu não sei por quê, mas senti algo de hipnótico na maneira como ela deu a ordem.
– Pegue o dinheiro e coloque na minha mão.
– Não vou te dar nenhum dinheiro, por que você não acertou nada.
– Não acertei? – agora ela falava em um tom meio irado e com estranho desdém. – A pomba-gira viu tudo.
– Não, você não acertou nada. E o nosso trato foi de que eu lhe pagaria somente se você acertasse. Mas você...
– Você não quer me dar o dinheiro? Sua vida terá um atraso.
O rosto da cigana agora perdera a calma e deixava transparecer raiva e frustração.
Que cena interessante! Comecei a rir. Do meu cinismo e da cara da cigana. A peça chegara ao fim, e a velha estava indignada. Quando ela percebeu que eu ía embora com meu bolso a salvo, esbravejou:
– Então que a desgraça te acompanhe!
Aí é que eu ri pra valer. Que coisa mais divertida! Eu não me agüentava de tanto rir. Subi a avenida, rindo que nem bobo.
Que mundo insólito esse nosso! Pobres humanos, pobres diabos. Ah ha-ha.
Como é bom quebrar a rotina. É, e agora eu tenho uma opção a mais de passatempo: descobrir quem é a 'loira' e quem é a 'morena'. Tsc, tsc.
Pos Scriptum: Sabe, da próxima vez que eu avistar uma dessas ciganas, escreverei na palma da minha mão umas merecidas palavrinhas, e, depois irei ter com ela. Imaginem como vai ser divertido. Olha, essas pilantras só perdem mesmo para o Edir Macedo e seus metralhas. Putz! R$ 20,00 é lá ‘um trocado’?!?
– Homem, deixa eu ler sua mão? – o pedido veio-me com um ponto de interrogação quase que apagado, dado que ela já foi agarrando meu braço, e, com incrível leveza, me arrastando para a sombra de uma árvore.
‘Céus! É hoje! Vou ver o que ela tem a me dizer’, tomei, relutantemente, a decisão . Ela me pareceu ser de uns cinqüenta e poucos anos. Estava com trajes a rigor e trazia, no rosto, aquela pintinha verde.
– Se eu ler o teu passado e o teu futuro, tu deixa um trocado pra mim?
– Se você conseguir ler o meu passado e o meu presente, eu te darei um trocado. – assenti firmando o contrato, mas bem certo de quem riria por último.
Abaixamos-nos debaixo da árvore e estendi a minha mão aberta. E, assim, a cigana começou:
– As coisas não estão indo bem... pessoas tentam te derrubar, gente invejosa, que não gosta da sua sorte. – ela falava numa voz seca, mas meia velada. Não dava bem pra saber ao certo se ela afirmava ou se perguntava. – Você sente sempre tonturas...
– Oh, não. Estou sempre muito bem. – interrompi.
– Mas tem gente de olho gordo que não quer que você seja feliz... Você é casado ou solteiro?
– Sou solteiro. – por pouco foi que eu não disse que era casado e pai de cinco filhos, só para ver o que ela iria falar.
– Eu vejo... duas linhas na sua mão. Tem duas mulheres na sua vida. Uma loira e uma morena. Qual das duas você prefere?
– Nenhuma.
O olhar dela deixou entrever um desnorteamento. Mas sem perder a pose, fez uma nova investida, agora numa abordagem mais direta:
– Pegaram uma roupa sua e fizeram um trabalho com dez velas vermelhas, e eu posso desfazer esse feitiço. Se eu desfizer a bruxaria – enquanto falava ela tirava dentre os seios uma pequena bolsa, bem sujinha, cheia de pedrinhas – você coloca R$ 20,00 na mão da vó? – disse balançando a encardida bolsinha.– Eu desfaço o trabalho que fizeram contra você, com essas pedrinhas... – eu não consigo agora me lembrar direito do que ela falou das ditas pedrinhas.
‘Olha só o 71 dessa cigana!’, eu pensava enquanto ela dizia palavras e frases sem qualquer nexo. Nesse ínterim, uma cigana bem moça, duns 19 anos, que me pareceu ser filha da velha, se aproximou exibindo uma nota de cinqüenta que tinha acabado de ganhar... Mostrou a nota e me disse apontando para a velha:
– Ela desfaz tudo certinho. – dizendo isso se retirou.
Unf!, fiquei sem entender qual era o babado da moça.
– Colocaram seu nome numa sepultura para você morrer louco. – disse-me a velha. – Mas eu desfaço o feitiço. Agora com a sua mão direita pegue R$ 20,00 e coloca na mão da vó.
– O quê?!? – eu não sei por quê, mas senti algo de hipnótico na maneira como ela deu a ordem.
– Pegue o dinheiro e coloque na minha mão.
– Não vou te dar nenhum dinheiro, por que você não acertou nada.
– Não acertei? – agora ela falava em um tom meio irado e com estranho desdém. – A pomba-gira viu tudo.
– Não, você não acertou nada. E o nosso trato foi de que eu lhe pagaria somente se você acertasse. Mas você...
– Você não quer me dar o dinheiro? Sua vida terá um atraso.
O rosto da cigana agora perdera a calma e deixava transparecer raiva e frustração.
Que cena interessante! Comecei a rir. Do meu cinismo e da cara da cigana. A peça chegara ao fim, e a velha estava indignada. Quando ela percebeu que eu ía embora com meu bolso a salvo, esbravejou:
– Então que a desgraça te acompanhe!
Aí é que eu ri pra valer. Que coisa mais divertida! Eu não me agüentava de tanto rir. Subi a avenida, rindo que nem bobo.
Que mundo insólito esse nosso! Pobres humanos, pobres diabos. Ah ha-ha.
Como é bom quebrar a rotina. É, e agora eu tenho uma opção a mais de passatempo: descobrir quem é a 'loira' e quem é a 'morena'. Tsc, tsc.
Pos Scriptum: Sabe, da próxima vez que eu avistar uma dessas ciganas, escreverei na palma da minha mão umas merecidas palavrinhas, e, depois irei ter com ela. Imaginem como vai ser divertido. Olha, essas pilantras só perdem mesmo para o Edir Macedo e seus metralhas. Putz! R$ 20,00 é lá ‘um trocado’?!?



