Deus é ateu
Antes de acessar a planilha de edição do blogger, eu fiz um ritual de purificação. Fui à geladeira, peguei um picolé de maracujá, acendi um palito de incenso indiano (que comprei numa dessas barraquinhas básicas), invoquei as boas energias concedidas por Bill Gates e me pus a digitar teclas encardidas para mais um post.
Eu estava tão calminho a princípio. Escrevendo palavras e frases ao estilo ‘Flower Power’ e até assobiando o refrão da música ‘Give Chance to Piece’. Estava até me sentindo nas nuvens imaginárias do nirvana. Mas tão logo o picolé chegou ao fim, fui forçado a descer sem direito a um pára-quedas. Cai na real.
De nada adiantou o picolé. E de nada adiantou o palitinho cheiroso. Na metade do post, meus nervos entraram em ebulição e minha mente entrou em incontrolada convulsão. As rosas e os lírios murcharam, e a fumacinha cheia de boas intenções saiu de fininho por algum canto da janela. E assim eu me vi no dever de fazer o que tinha que ser feito. Apaguei todas as linhas de perdão e salvação, e fiz uma leitura ao avesso de tudo. É o que você está prestes a ler. Pois bem, seja bem-vindo, respire fundo, agüente até o fim – se for capaz –, e, depois peça perdão a deus por você ter colocado seus olhos aqui.
Antes de tudo, uma confissão: eu não sou deus. Mas, como já estive na fileira dos fideístas (aos desavisados: isso não tem nada a ver com Cuba), eu sei muito bem das acusações que sofrem os meus amigos ateus. São eles chamados de ‘imorais’, de ‘inimigos do bem comum’, de ‘brutos’ e de outras sandices dignas de quem mal enxerga a ponta do próprio nariz. Recebi algumas cartinhas nesse sentido, cartinhas que não me dizem em nada, mas que, por considerar o alto teor de bazófia nelas contido, senti-me tentado a escrever o presente post. E sem meias-palavras.
Acerca de ‘os ateus e a moralidade’. Na lata: quem foi que disse que para ter uma ‘moral’ tem que necessariamente ‘ser religioso’ ou acreditar em qualquer raio de divindade? A ‘moral cristã’ ou qualquer outra dita ‘moral religiosa’ é apenas uma dentre as muitas alternativas de pensamento e conduta. Nem preciso me estender muito nesse ponto. Pra começo de conversa, é ridículo falar em nome de uma ‘moral social’ ou ‘coletiva’. Antes de qualquer coisa: não existe homogeneidade de ‘pensamento e conduta moral’ entre um indivíduo e outro, mesmo que ambos façam parte de um mesmo grupo – seja este religioso ou político – e por mais fechado que o grupo seja. Ora, cada indivíduo faz a sua própria escolha de valores (se consciente disso ou não, é outra história) e age como bem entender. Pretender uma suposta ‘homogeneidade moral’ ou 'moral coletiva' é próprio de gente que tem mentalidade totalitária, de quem prioriza as formalidades em detrimento da sinceridade, de quem ainda nem se conhece, ou por falta de neurônios mesmo.
Ah, um outro ponto que me foi levantado. E esse é bastante corrente na passarela do discurso religioso. O de que ‘a religião é necessária para manter a ordem social’. Eles dizem que a religião é a ‘guardiã da moral’, a ‘porta-voz dos bons valores e costumes tão necessários à ordem’, e, que ‘sem a religião a sociedade vai à bancarrota’. Zabiruzuzunga, meu santo-saco-imaculado! Então é isso o que as crianças aprendem debaixo da saia dos padres?
Querem me fazer crer que a sociedade deve ter ‘rédeas’, que do contrário, alertam, as coisas saem da ‘ordem’. Então é de se perguntar: qual ‘ordem’? Leviatã, maldito seja. Meus amigos, os valores e os costumes devem acaso ser orientados pela inteligência e pelo bom senso ou eles devem ser regidos pelos delírios de Platão, pelos medos e pequenez da mente?
Por ‘pequenez de mente’ vou citar uma pérola que encontrei num dos mais recentes livros que me chegaram aos olhos. O livro em questão é O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams. É um desses livros que não faz bem a minha cara – sempre fui um enjoado para tudo que me lembre disco voador –, mas que quando chego à última página sou obrigado a reconhecer que se trata de um digno best-seller. Bom, vejam só o que eu encontrei. Bradley Trevor Greive, ao prefaciar a obra mencionada, veio com essa: Embora [Douglas Adams] declarasse ser ‘um ateu radical’, seus livros demonstram um sentido claro e nítido de justiça e compaixão universais. Prestaram atenção na conjunção? Ao que parece, para Greive , ‘um sentido claro e nítido de justiça e compaixão universais’ é algo de se estranhar em 'um ateu radical' . Captaram?
Eu não sei donde as pessoas tiraram a idéia de que ‘um sentido claro e nítido de justiça e compaixão universais’ está ligado necessariamente à crença na existência de 'Deus'. Sinceramente, eu não consigo ver nenhuma ilação necessária entre a existência de um Ser Superior com valores tais como ‘justiça’ e ‘compaixão’. Ora, desde que tudo é possível nos planos da metafísica, um suposto ‘Ser Superior’ pode muito bem estar ligado é com ‘injustiça’, ‘hipocrisia’ e outras mazelas, ora pombas! E que ironia dizer que a crença em ‘Deus’ é a base da democracia e do ‘bom trato entre as pessoas’. Ó pérfida ignorância!
E olha lá. Já estão dizendo que me tornei numa pessoa ‘intolerante’. Essa acusação vinda da parte de alguns religiosos é mesmo incrível. E logo da parte de quem? Justamente dos que são tão prontos a condenar – inclusive à morte, se tiverem o poder nas mãos para tanto – a tudo e a todos que não se encaixam nas beatices e patetices (desculpem-me a redundância) que tanto prezam.
Já que estou enfezadinho (e este é meu ponto ótimo), lá vai mais uma bordoada que não é para os fracos: se você concorda com uma sociedade feita de gente idiota e hipócrita, uma sociedade que se acha dona da ‘moral’, continue fazendo uso da vossa boa religião. Afinal de contas, ela presta grande auxílio ao Estado ao estar formando dia-a-dia uma legião de soldadinhos de chumbos. É isso.
Em dias próximos, veremos: ‘Shiva dança e rebola’, ‘Deus é gay ou não?’ e outras questões respondidas que convencerão você a entrar para um convento.
Eu estava tão calminho a princípio. Escrevendo palavras e frases ao estilo ‘Flower Power’ e até assobiando o refrão da música ‘Give Chance to Piece’. Estava até me sentindo nas nuvens imaginárias do nirvana. Mas tão logo o picolé chegou ao fim, fui forçado a descer sem direito a um pára-quedas. Cai na real.
De nada adiantou o picolé. E de nada adiantou o palitinho cheiroso. Na metade do post, meus nervos entraram em ebulição e minha mente entrou em incontrolada convulsão. As rosas e os lírios murcharam, e a fumacinha cheia de boas intenções saiu de fininho por algum canto da janela. E assim eu me vi no dever de fazer o que tinha que ser feito. Apaguei todas as linhas de perdão e salvação, e fiz uma leitura ao avesso de tudo. É o que você está prestes a ler. Pois bem, seja bem-vindo, respire fundo, agüente até o fim – se for capaz –, e, depois peça perdão a deus por você ter colocado seus olhos aqui.
Antes de tudo, uma confissão: eu não sou deus. Mas, como já estive na fileira dos fideístas (aos desavisados: isso não tem nada a ver com Cuba), eu sei muito bem das acusações que sofrem os meus amigos ateus. São eles chamados de ‘imorais’, de ‘inimigos do bem comum’, de ‘brutos’ e de outras sandices dignas de quem mal enxerga a ponta do próprio nariz. Recebi algumas cartinhas nesse sentido, cartinhas que não me dizem em nada, mas que, por considerar o alto teor de bazófia nelas contido, senti-me tentado a escrever o presente post. E sem meias-palavras.
Acerca de ‘os ateus e a moralidade’. Na lata: quem foi que disse que para ter uma ‘moral’ tem que necessariamente ‘ser religioso’ ou acreditar em qualquer raio de divindade? A ‘moral cristã’ ou qualquer outra dita ‘moral religiosa’ é apenas uma dentre as muitas alternativas de pensamento e conduta. Nem preciso me estender muito nesse ponto. Pra começo de conversa, é ridículo falar em nome de uma ‘moral social’ ou ‘coletiva’. Antes de qualquer coisa: não existe homogeneidade de ‘pensamento e conduta moral’ entre um indivíduo e outro, mesmo que ambos façam parte de um mesmo grupo – seja este religioso ou político – e por mais fechado que o grupo seja. Ora, cada indivíduo faz a sua própria escolha de valores (se consciente disso ou não, é outra história) e age como bem entender. Pretender uma suposta ‘homogeneidade moral’ ou 'moral coletiva' é próprio de gente que tem mentalidade totalitária, de quem prioriza as formalidades em detrimento da sinceridade, de quem ainda nem se conhece, ou por falta de neurônios mesmo.
Ah, um outro ponto que me foi levantado. E esse é bastante corrente na passarela do discurso religioso. O de que ‘a religião é necessária para manter a ordem social’. Eles dizem que a religião é a ‘guardiã da moral’, a ‘porta-voz dos bons valores e costumes tão necessários à ordem’, e, que ‘sem a religião a sociedade vai à bancarrota’. Zabiruzuzunga, meu santo-saco-imaculado! Então é isso o que as crianças aprendem debaixo da saia dos padres?
Querem me fazer crer que a sociedade deve ter ‘rédeas’, que do contrário, alertam, as coisas saem da ‘ordem’. Então é de se perguntar: qual ‘ordem’? Leviatã, maldito seja. Meus amigos, os valores e os costumes devem acaso ser orientados pela inteligência e pelo bom senso ou eles devem ser regidos pelos delírios de Platão, pelos medos e pequenez da mente?
Por ‘pequenez de mente’ vou citar uma pérola que encontrei num dos mais recentes livros que me chegaram aos olhos. O livro em questão é O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams. É um desses livros que não faz bem a minha cara – sempre fui um enjoado para tudo que me lembre disco voador –, mas que quando chego à última página sou obrigado a reconhecer que se trata de um digno best-seller. Bom, vejam só o que eu encontrei. Bradley Trevor Greive, ao prefaciar a obra mencionada, veio com essa: Embora [Douglas Adams] declarasse ser ‘um ateu radical’, seus livros demonstram um sentido claro e nítido de justiça e compaixão universais. Prestaram atenção na conjunção? Ao que parece, para Greive , ‘um sentido claro e nítido de justiça e compaixão universais’ é algo de se estranhar em 'um ateu radical' . Captaram?
Eu não sei donde as pessoas tiraram a idéia de que ‘um sentido claro e nítido de justiça e compaixão universais’ está ligado necessariamente à crença na existência de 'Deus'. Sinceramente, eu não consigo ver nenhuma ilação necessária entre a existência de um Ser Superior com valores tais como ‘justiça’ e ‘compaixão’. Ora, desde que tudo é possível nos planos da metafísica, um suposto ‘Ser Superior’ pode muito bem estar ligado é com ‘injustiça’, ‘hipocrisia’ e outras mazelas, ora pombas! E que ironia dizer que a crença em ‘Deus’ é a base da democracia e do ‘bom trato entre as pessoas’. Ó pérfida ignorância!
E olha lá. Já estão dizendo que me tornei numa pessoa ‘intolerante’. Essa acusação vinda da parte de alguns religiosos é mesmo incrível. E logo da parte de quem? Justamente dos que são tão prontos a condenar – inclusive à morte, se tiverem o poder nas mãos para tanto – a tudo e a todos que não se encaixam nas beatices e patetices (desculpem-me a redundância) que tanto prezam.
Já que estou enfezadinho (e este é meu ponto ótimo), lá vai mais uma bordoada que não é para os fracos: se você concorda com uma sociedade feita de gente idiota e hipócrita, uma sociedade que se acha dona da ‘moral’, continue fazendo uso da vossa boa religião. Afinal de contas, ela presta grande auxílio ao Estado ao estar formando dia-a-dia uma legião de soldadinhos de chumbos. É isso.
Em dias próximos, veremos: ‘Shiva dança e rebola’, ‘Deus é gay ou não?’ e outras questões respondidas que convencerão você a entrar para um convento.

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