terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Um salve para Bultmann!

Bultmann puxando um fuminho,
talvez inspirado no "vapor de fumo" relatado pelo
profeta Isaías (6:4).
Embora seja tido por alguns como um dos maiores estudiosos do Novo Testamento do século XX, Rudolf Bultmann coçava o saco enquanto se punha a ler os relatos dos milagres atribuídos a Jesus.

Aparentemente, Bultmann queria alcançar a simpatia dos céticos e cientificistas, daqueles que não aceitam a "possibilidade de milagres". E então, Bultmann se lançou na tarefa de apresentar um "Cristo demitologizado" a fim de que a sensibilidade de seus "ouvintes modernos" não fosse ofendida. Em pouco tempo, o tal Cristo-demitologizado ganhou apreço nos seminários protestantes e evangélicos. Uma onda de pastores "intelectualizados" apareceu no mercado da fé; todos com uma nova mensagem: "Pouco do que se sabe sobre Jesus, realmente aconteceu."

O tempo se passou e cá vemos nós os frutos do esforço de Bultmann: tudo o que ele conseguiu foi esvaziar as lojas de fé (que muitos chamam de "igrejas") da Europa, dos EUA e de outros países. O que nenhum ateu e o que nenhum satanista conseguiu ter feito, Bultmann o fez.

sábado, 28 de janeiro de 2012

A Lei, a Graça e a Pilantragem


Quando eu converso com um judeu ortodoxo, eu não posso esperar dele a não ser um tácito orgulho. Todo discurso judaico parte dessa premissa: "Nós somos o povo escolhido". O judeu está certo disso. O Enaltecido o escolheu e ponto-final.

Eu não estranho que um judeu ortodoxo, na defesa de suas crenças, me fale de outra coisa a não ser da Torá e do Talmude. E também não estranho se ele, na luta por suas ambições terrenas, possa se justificar tomando como exemplo o pai Jacó, cujo nome significa "enganador, mentiroso, trapaceiro". Um belo nome, pois. Mas o que devo esperar de alguém que diz seguir a Jesus de Nazaré?

É inconteste que a tônica da mensagem de Jesus é precisamente o “renuncie-se a si mesmo” (Mateus 16:24). Jesus chamava isso de "levar sua própria cruz". Essa é condição sine qua non do verdadeiro seguidor de Cristo: ser aquele que nega seus próprios desejos, seu orgulho e até mesmo sua própria sobrevivência em função do bem-estar alheio (confira Mateus 5:39, 41; Mateus 19:19; Lucas 16:15). Então... tudo o que espero de um autêntico seguidor do Cristo é que ele não seja pilantra como Jacó, nem mandão como Moisés, e nem cínico como o rei Davi.

Todavia, parece que ninguém quer correr o risco de negar a si mesmo; ninguém quer ter uma vida de cruz. Puxa vida, quão difícil é ter que suportar – aliás, amar – aqueles que vivem a torrar a nossa paciência! "E não é nada fácil deixar que um colega fique com a vaga de trabalho que bem que poderia ser minha!" Difícil, né? Ah, o Sermão da Montanha, o Pai-Nosso e Atos 4, nem pensar!

Mas pra quê tanto conflito? Então uma solução foi inventada. A pronta saída e pronta entrega é ficar com o melhor do Novo Testamento e também com o melhor do Velho Testamento. Como assim?! É fácil. Aqui vai a receita:

Com o Novo Testamento você fica com o Céu: "A salvação é pela fé, eu aceitei Jesus, então, amém!".

E, com o Velho Testamento você fica com as promessas terrenas dadas aos judeus: "Oh, sim, sim! Eu também sou, pela fé, um dos filhos do pai Abraão! Então eu posso correr atrás de meus próprios interesses! Posso ficar rico... passar por cima dos outros... Posso, inclusive, ter mais uma mulher, mesmo que no escondidinho, né?"

Perfeito!

Pois é, viu só como o diabo fez de você um perfeito pilantra?


Paz da conveniência

sábado, 17 de dezembro de 2011

Morrer é lucro?

A convicção e postura cristãs diante da existência se baseiam em alguns postulados bem interessantes. Ei-los:

<< O mundo é maligno (1 João 5:19) >>
<< O corpo humano é "a carne do Pecado" (Romanos 8:3) >>
<< A vida é uma constante luta entre a carne e o espírito (Gálatas 5:16) >>
<< Estamos aqui de passagem, nosso lugar não é aqui (Hebreus 11:16) >>

Os cristãos primitivos, em resposta à existência, faziam referência ao enunciado apostólico: "Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens" (1 Coríntios 15:19). O escritor dessa interessante passagem, que faz-se crer que foi Paulo, o apóstolo, também expressou: "Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro" Filipenses 1:21.

De fato, a convicção de que a morte é um ganho era compartilhada por todos os cristãos. Eles queriam em tudo se assemelhar a Jesus como legítimos seguidores. Se Jesus se entregou à morte, eles também queriam se entregar. Havia até incentivo da parte dos líderes cristãos a que todos almejassem o martírio. Justino Mártir, no século II, foi um deles. Ele escreveu: 

— Já que não fixamos nossos pensamentos no presente não nos preocupamos quando os homens nos levam à morte. 

Essa exortação era comum aos cristãos: "Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas." (Colossenses 3:2). O próprio Paulo, o último dos apóstolos, escreveu qual era o seu desejo: 

— Quero conhecer a Cristo, ao poder da sua ressurreição e à participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte. (Filipenses 3:10). 

O martírio era algo muito desejado pelos primeiros cristãos. A participação nos sofrimentos de Cristo era chamado por eles de "batismo no sangue", um segundo batismo, em alusão às palavras de Jesus: "Podeis ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?" — Marcos 10:38.

O fervor da igreja primitiva era tanto que o martírio era considerado como sendo "o melhor batismo". Na vontade de serem considerados por Deus como "verdadeiros discípulos de Jesus", os cristãos se alegravam quando eram presos e condenados à morte. Policarpo, no ano 156, escreveu essas palavras:

— Eu te bendigo [Senhor] por me terdes julgado digno deste dia e dessa hora, digno de ser contado no número dos vossos mártires... guardastes vossa promessa, Deus da felicidade e da verdade.

Inácio de Antioquia, no ano 107, chegou até mesmo a escrever uma carta pedindo para que seus irmãos de fé não impedissem o seu martírio. Em um trecho da sua Carta aos Romanos, lemos:

—  Espero poder enfrentar com alegria as feras que estão preparando para mim, e peço a Deus que eu possa encontrá-las prontas a lançarem-se sobre mim. Se não quiserem, eu mesmo as instigarei para que me devorem num instante.

Ao nos depararmos com essas palavras, ficamos nos perguntando se cristãos ainda existem.

Ah, os séculos passam, e com eles também as belas certezas... A única coisa que parece não passar é o fanatismo, a hipocrisia, a intolerância, o abuso de autoridade em nome de um deus ou em nome de qualquer raio de doutrina . Bom, sempre foi fácil encontrar fanáticos, mas hoje em dia é bem difícil encontrar alguém que tenha a firme convicção de que morrer é mesmo um  lucro.  Hoje o que encontramos são os adeptos de que fazer igreja é que dá lucro. E o que mais se vê é crente preocupado com essa vida passageira, ansiando por prosperidade, fazendo seguro de vida, pagando carnezinhos de saúde tipo Unimed, e, o pior, pagando campanhas e sacrifícios — lê-se: colocar dinheiro no bolso do pastor — em troca de milagres e bençãos. E parece que ninguém percebe a gritante contradição em que vivem! Por que será?

Vamos lá. Assinale a alternativa correta:

a) Não se tem certeza realmente do que diz acreditar.
b) Não saber se depois de esticar as canelas se vai mesmo para o céu. (Oh, horror!)
c) Viver na Terra é muito bom! Eu adoro praia! E no céu não vai ter sorvete, nem sexo e nem chocolate! (Então... The heavens can wait!)
d) Por um masoquismo enrustido.
e) Os cristãos primitivos eram ignorantes, não sabiam do que falavam!
f) Nenhuma das alternativas ou todas as alternativas dadas acima.


Paz da ausência

sábado, 26 de novembro de 2011

Um negócio muito bom


Pra quem é safado e cara-de-pau, igreja é mesmo um negócio muito bom. É o estelionato legalizado e patrocinado pelo governo. Igreja pode ser Caixa 2 pra tudo que é lixo e não tem problema algum! É o milagre da limpeza. E o melhor de tudo: não paga imposto e não tem que prestar conta nenhuma a sociedade.

Paz da permissividade

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A vida sexual dos primeiros cristãos

Guarigione dello storpio e resurrezione di Tabita, de Masolino da Panicale.
Dediquei-me, na noite de ontem, a ler a Primeira Epístola de Pedro. À medida que ia lendo os capítulos e assuntos tratados, era-me impossível não lembrar dos inúmeros testemunhos dos primeiros cristãos. Quão diferente é o Cristianismo de hoje! Vejamos um flagrante:

- Semelhantemente [o escritor falava anteriormente sobre a submissão que os homens devem ao rei e ao patrão - ele evoca aqui o mesmo padrão de semelhança para as mulheres] vós, mulheres sede submissas a vossos próprios maridos, para que também, se alguns deles não obedecem à Palavra, pelo procedimento de suas mulheres, sejam ganhos sem palavra, considerando a vossa vida casta, em temor. (1 Pedro 3:1, 2)

A passagem dispensa interpretação. O apóstolo diz que o silêncio e a castidade das mulheres cristãs são procedimentos decisivos para a conversão dos maridos que "não obedecem à Palavra".

Será que o modelo original da mulher cristã era mesmo ficar em silêncio e se abster do contato sexual? No segundo capítulo, Pedro já tinha evocado o princípio da abstinência:

- Amados, peço-vos como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a alma. (2:11)

Que valor tinha para os cristãos a abstinência e a castidade? Pedro faz menção:

- Igualmente vós, maridos, coabitai com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais fraco; como sendo vós os seus co-herdeiros da graça da vida; para que não sejam impedidas as vossas orações. (3:7)

Que entendimento os cristãos primitivos tinham concernente à vida sexual no casamento? Era um entendimento segundo o princípio da abstinência. Se o casal é dado aos desejos sensuais, as orações são impedidas de chegar a Deus, ensinavam.

Vejamos agora, para bem nos acercarmos, o testemunho de alguns dos principais cristãos da igreja das origens:

- ... às mulheres lhes encarregavam a execução de todos seus deveres numa consciência sem mancha, apropriada e pura, dando a seus próprios maridos a consideração devida; e lhes ensinavam a guardar a regra da obediência, e a reger os assuntos de suas casas com propriedade e toda discrição. (Clemente de Roma, 30-100 d.C.)

Clemente exortava:

- Guiemos as nossas mulheres para o que é bom: que mostrem sua formosa disposição de pureza; que provem seu afeto sincero de bondade; que manifestem a moderação de sua língua por meio do silêncio; que mostrem seu amor, não em preferências partidárias, senão sem parcialidade para todos os que temem a Deus, em santidade.

Policarpo, no ano 135, escreveria tais recomendações:

- Ensinemo-nos primeiro a andar no mandamento do Senhor; e depois a nossas esposas também, a andar na fé que lhes foi dada e em amor e pureza, apreciando a seus próprios maridos em toda verdade e amando a todos os homens igualmente em toda castidade, e criando a seus filhos no temor de Deus.

A abstinência sexual, mesmo no casamento, era um sinal de que o cristão estava andando segundo o Espírito. Polícrates, no ano 190, escrevendo a respeito de um dos primeiros seguidores de Jesus:

- Falo de Felipe, um dos doze apóstolos, o qual foi repousar em Hierápolis. Falo também de suas duas filhas que chegaram à velhice sem casar-se. Sua outra filha também [casada], que passou sua vida sob a guia do Espírito Santo, jaz em Éfeso.

Não somente a virgindade era sinal de uma vida de dedicação ao Senhor, mas também a castidade no casamento era sinal de que o cristão vivia na dependência do Espírito Santo.

Seria suficiente ler tais aportes para sabermos acerca da sexualidade dos primeiros cristãos? Clemente de Alexandria, em 195, também: "Suas esposas foram com eles, não como esposas, senão como irmãs..." O que confirma o mandamento expresso por Paulo na Primeira Carta aos Coríntios:

- Que os casados sejam como se não fossem casados. (7:29)

Você vê esse comportamento nos ditos cristãos de hoje? Não, não se vê. Antes, os pastores dão incentivo exarcebado a que os jovens se casem tendo em vista o "aumento do rebanho". Mas quão diferente eram os primeiros cristãos! Justino Mártir, no ano 160, exaltava-se:

- Entre nós há muitos e muitas que, feitos discípulos de Cristo desde a meninice, permanecem virgens até os sessenta e os setenta anos... e eu me glorio que se os posso mostrar de entre toda raça humana!

E Atenágoras, em 175, repetia o que tinha aprendido dos apóstolos: "O mero pensamento e desejo de coito nos aparta da comunhão com Deus." O próprio Atenágoras testemunharia acerca dos primeiros cristãos:

- E até é fácil achar entre nós muitos homens e mulheres que chegaram virgens até sua velhice com a esperança de atingir assim uma maior intimidade com Deus.

O cristão Metodio, do ano 290, dizia ter o verdadeiro gozo:

- A ti consagro minha pureza, ó Divino Esposo! E vou a teu encontro com o lustre brilhante em minha mão. Abandonei os tálamos e palácios de casamentos terrenos por ti, ó Divino Mestre! Resplandecente como o ouro; a ti me acerco com minhas vestimentas imaculadas, para ser a primeira em entrar contigo na felicidade completa da câmara nupcial.

Interessantes palavras de Metodio. Ele continua:

- Esqueci minha pátria arrastada pelo encanto ardente de tua graça, ó, Verbo divino! Esqueci os coros das virgems colegas de minha idade e a felicidade de minha mãe e de minha raça, porque tu mesmo, tu, ó, Cristo!, és tudo para mim.

Que pensais agora a respeito dos primeiros cristãos? Não dá, evidentemente, para compará-los com os ditos cristãos de hoje, não é mesmo? É Justino Mártir, no ano 160, quem diz:

- Não contraímos casamento senão para a procriação e educação dos filhos ou, se renunciamos a ele, vivemos em perpétua continência.

Difícil?

O que você acabou de ver é apenas uma palhinha do gritante distanciamento que se encerra entre os primeiros cristãos e a atual Cristandade. Então, caro leitor, da próxima vez que um desses ditos cristãos lhe vier com "sermão de moral", lembre-se do que você acabou de ler: é um ótimo colírio para os olhos dos cegos e hipócritas.

Paz da História

domingo, 23 de outubro de 2011

Dançando com Santo Agostinho

Agostinho, dito doutor da Igreja, é a peça chave para entendermos a história dos dogmas cristãos. Tanto os católicos quanto os protestantes e evangélicos recorrem ao bispo quando tratam de defender suas crenças.

Certa vez, Santo Agostinho ficou preocupado sobre a questão acerca da origem do mal. Depois de tanto rezar e consultar diversos livros pagãos, Agostinho estabeleceu algumas silogias no intuito de dar por encerradas as querelas em torno da mencionada questão. Assim ele fez:

1) Deus criou todas as coisas;
2) O mal é uma coisa;
3) Portanto, Deus criou o mal.

A seguir, Agostinho estabelece a negativa da segunda premissa:

1) Todas as coisas que Deus criou são boas;
2) O mal não é bom;
3) Portanto, o mal não foi criado por Deus.

Indo um pouco mais avante, num esforço enorme de salvaguardar a figura do bondoso Deus, ele propôs essa estratégia:

1) Deus criou todas as coisas;
2) Deus não criou o mal;
3) Portanto, o mal não é uma coisa.

Agostinho passou então a pensar nesses termos: "O mal não possui uma natureza negativa, mas a perda do bem recebeu o nome de 'mal'". Ele estabeleceu então que o mal é o próprio ato de escolher um bem menor. Por fim, ele deu como conclusiva a afirmação de que a fonte do mal está no livre-arbítrio das pessoas. Agostinho ficou feliz, dando por certo mais um caso encerrado pela gloriosa Teologia.

Ficou convencido? Não se apresse. Vamos dançar mais um pouquinho.

Se o mal existe, quem o criou?

1) A consequência tem sua razão na causa;
2) O mal veio do livre-arbítrio (segundo Agostinho);
3) Logo, o livre-arbítrio contém o mal.

O mal nasceu do nada?

Ora, pois,

1) Só o incriado é Deus.
2) O mal não foi criado.
3) Portanto, o mal é Deus!

Viu só, Agostinho, no que é que dá ficar brincando de silogismo?


Paz da desconstrução

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Índio andar pelado e não se envergonhar!

Há cerca de uns quinhentos anos...

O missionário perguntou para o índio que estava com tudo à mostra:

- Você não tem vergonha de andar pelado?

O índio respondeu:

- Vergonha índio não saber!

O missionário se esforçou para dar uma resposta. Ele queria fazer o índio entender o que é "ter vergonha". Mas não conseguiu. Já cansado de ouvir o missionário, o índio pegou a canoa e foi embora balançando a benga.

Moral da história:

Os conceitos de ‘santidade’ e ‘santificação’ não cabiam nas tribos indígenas. Nem a ceroula de Aarão. Que os nossos índios tinham a ver com Moisés? Nada. As nossas índias andavam com a teta à mostra e os nossos índios não faziam muita questão de esconder o bilau. Os preceitos maliciosos de Jeovino não tinham vez.

Bom, eu sei que alguns dirão – aliás, repetirão, por que é isso o que fazem: “A lei de Deus está na consciência deles, e por essa consciência eles serão julgados.” Aí se pergunta: Qual ‘lei’? E de qual ‘Deus’? Dizem que se trata da ‘lei natural’. Ora, ora. Então por que não vivemos de acordo com essa lei? Por que lá no Éden o deus Jeovino tinha que maliciar a respeito do periquito e da periquita?

Reza a lenda que Adão e Eva se envergonharam um do outro ‘quando se deram por conta’ de que estavam nus da cintura pra cima e pelados da cintura pra baixo. Que estranho... Quer dizer então que a Janaína e o Tupiacã não são descendentes de Adão? Ah, sim, eles tornaram-se descendentes por obrigação dos nossos missionários! Aliás, os missionários viam ‘indecência’ no índio andar solto a balançar a benga e na índia a andar com as tetas à mostra. Só havia uma única coisa que os missionários viam de decente nos índios: o ouro.

Paz da perereca

domingo, 14 de agosto de 2011

O poder do sangue

Em antigas civilizações, o sangue menstrual era considerado sagrado, sinal de doação da vida. Acreditava-se que, ao cair o sangue juntamente com o endométrio desprendido do útero, a terra ficava adubada, propícia para a plantação, sendo uma promessa de colheita abundante. Mitos agrários, relacionados à morte e regeneração, foram desenvolvidos e usados como uma alegoria do ser humano. E o centro de tais cultos era a mulher, vista como a portadora e doadora da vida.

Nessa cultura voltada ao feminino, o período da menstruação era considerado um tempo especial e sagrado. E não tardou que percebessem que o ciclo menstrual coincidia com o ciclo lunar. Criou-se a partir daí uma ideia mística em relação ao poder da Lua, tida como a representação da Deusa. O sangue então era a manifestação da divindade, a "força de vida" ou o "espírito fluído". Conta-se que o sangue menstrual era celebrado e sorvido. E quem dele tomava, acreditava-se, ganhava poder, força e vigor.

Quando ouvi isso pela primeira vez, fiquei deveras curioso, pois senti que aí estava a chave para algumas das perguntas que eu fazia enquanto cristão. Por exemplo, por que tanto no terceiro céu quanto nos quintos dos infernos só tem macho? É Deus Pai, é o Filho, é o Espírito Santo, é o Anjo Gabriel, é o Belzebu... Tudo macho! Os pronomes e nomes são todos masculinos numa cosmovisão inteiramente  machista e patriarcalista. E o mais curioso é que eles não tem sexo! Se o Criador não tem sexo, então eu posso chamar ele tanto de Deus quanto de Deusa, certo? Se ele não tem genitália, então eu posso chamá-lo de Mãe ao  invés de Pai! Me disseram que não, que esse negócio de Deusa não é bíblico, e que chamar Deus de Mãe fica muito esquisito. Não me convenci.

Foi lendo sobre as antigas tradições que deparei-me com a história dos rituais de menstruação e que as mulheres eram vistas como representantes do divino. Uma ligação que não tem segredo. Pois, é a mulher que gera, que faz crescer dentro se si e quem traz ao mundo uma nova vida. A porta da vida é a mulher. E após a criança nascer, a mulher, agora na qualidade de mãe, é quem cuida e continua nutrindo. Esse fato maravilhoso de gerar e cuidar de uma vida fez nascer a crença na Grande Deusa Mãe, venerada por todos os povos em todos os tempos.

"Mãe: a palavra mais bela pronunciada pelo ser humano", escreveu o poeta Kahil Gibran. É lugar comum ouvir que nada se compara ao amor de mãe. E isso não é de agora. Platão lamentava a perda de sua mãe com essas palavras: "Tenho irmãos, pai, mas não tenho mãe. Quem não tem mãe, não tem família." Se a figura feminina é o grande símbolo de amor e ternura, como então é que foi estabelecido o culto ao deus pai?

A figura masculina advém das culturas de guerra. Em tais culturas, o amor e a ternura não eram os mais importantes. Fazia-se necessário cultivar o orgulho, a bravura e o ódio. A figura que cuida e que nutre não convinha ao ideal da guerra. Para incitar o desejo de conquista, um deus macho foi criado e a ele deram vários nomes-títulos bem apropriados: Skanda (deus hindu, "Senhor da Guerra"), El (deus cananeu, "Soberano"), Baal (deus cananeu, "Senhor da Guerra"), Elohim Tzevaot (deus hebreu, "Senhor dos Exércitos"), Ares (deus grego, "Senhor da Guerra")... Todos esses deuses personificavam o desejo por poder e sede de conquista. E, embora muitas nações cultuavam tanto a Deusa quanto o Deus, teve casos em que os líderes se esforçaram ao máximo para banir quaisquer resquício do culto à Deusa. Notavelmente, os sacerdotes do Judaísmo muito se esforçaram para que Astarote – um dos nomes da Deusa Mãe –, fosse banida, afim de que o culto fosse prestado unicamente ao Elohim Tzevaot (Juízes 2:13; 1 Samuel 31:10; 1 Reis 11:5). De fato, todo o esforço era para que a nação fosse construída sob o ideal da guerra Deuteronômio 20:20; 21:10.

Quero abrir aqui um parêntese de suma importância. O leitor atento que conferiu em sua Bíblia as passagens referidas acima, pôde ver que Salomão tornou-se um adorador da Deusa Mãe. O interessante é que o reinado de Salomão foram dias de paz. Não havia guerra. Então que sentido havia em adorar Elohim Tzevaot? Nenhum. Embora o escriba jeovista tenha escrito, e isso bem posteriormente, que "as mulheres corromperam o coração de Salomão" (1 Reis 11:2 a 4 - note bem em quem o escriba machista colocou a culpa), o homem dito "o mais sábio da Terra" viu que havia mais favor em adorar a Deusa Mãe, que representava a paz e a celebração da vida, do que em adorar ao ranzinza deus Jeová, "o Senhor dos Exércitos". Fecha parêntese.

Se na cultura matriarcal, o rito estava vinculado ao sangue da menstruação (que significa mês da lua), como se daria a transposição para a cultura patriarcal? A única alternativa seria o sangue derramado através da imolação: o holocausto de primogênitos e, posteriormente, o sacrifício de ovelhas e bois. Se antes era o sangue menstrual, a prova concreta da dança da vida, agora o sangue derramado de bois e ovelhas seria representativo no caráter de substituição: o derramamento de sangue inocente para satisfazer as exigências de um deus de mandamentos e de culpa Levítico 4:20.

Do sangue da menstruação ao sangue do sacrifício. A sublevação patriarcal! E nessa passagem um duro golpe foi desferido no sagrado feminino:

- Mas a mulher, quando tiver fluxo, e o seu fluxo de sangue estiver na sua carne, estará sete dias na sua separação, e qualquer que a tocar, será abominável até à tarde. (Levítico 15:19)

Estratégia política perfeita. Se antes a menstruação era exaltada como símbolo da vida, agora, segundo a tradição patriarcal, o sangue menstrual passa a ser chamado de "o fluxo imundo", numa estratégia clara de poder de controle dos corpos. Com a menstruação sendo proscrita, a Deusa passou a ser considerada a "Grande Abominação".

Mas o que seria oferecido em troca do sangue da menstruação? A única possibilidade de troca seria por meio do sacrifício, o sangue vertido através de um holocausto expiatório. E o ápice dessa transmutação foi o que veio a ser conhecido como "o sacrifício do filho de Deus", este tido nas escrituras pagãs, e, posteriormente, no pensamento judaico-cristão, como o "Sol da justiça" Malaquias 4:2.

O Sol, símbolo da divindade masculina, foi posto em oposição à Lua, símbolo da divindade feminina. Do sangue da mulher ao sangue de um homem morto numa cruz. E nesse processo, coube à mulher o estigma da virgindade e a obrigação da obediência e do silêncio, agora representada pela figura da Virgem Maria que, significativamente, era desenhada pelos primeiros cristãos como "uma mulher vestida do Sol e tendo a Lua debaixo de seus pés"! Apocalipse 12:1.

Hoje os cristãos celebram a morte de Jesus, tido como o sacrifício definitivo por toda a humanidade. E o sangue derramado na cruz é visto como a fonte de perdão e salvação (Mateus 26:28). Apresentado:

- Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós. (Lucas 22:20)

Se você perguntar para um padre ou para um líder protestante sobre a importância do sangue de Jesus, ambos lhe dirão que se trata de um "sacramento". Palavrinha esquisita, não? Então você ouvirá a explicação de que sacramento significa "um sinal da presença de Deus em nossas vidas". Aí estará tudo explicado e bonitinho, exceto pelo detalhe de que a palavra sacramento se origina provavelmente de sacer mens, literalmente, "menstruação sagrada".


Paz das origens

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

7 passos para roubar e mentir e ainda pagar de santo

Agostinho, bêbado de Platão
Você sabia que existe uma longa caminhada entre a descoberta de uma verdade e a aceitação dessa mesma verdade? E você sabe a diferença entre um plágio remendado e uma revelação? O presente tópico foi escrito para você entender como foi que se desenvolveu a religião cristã.

Primeiro Passo - Os religiosos condenam qualquer descoberta filosófica, científica, e qualquer inovação tecnológica. Tudo o que é novo ou diferente, os religiosos de plantão acusam de ser "do mundo", do "inimigo" ou, na melhor das hipóteses, de não ser "conveniente".

Segundo Passo - O que é novo e diferente ganha destaque na sociedade e acaba por influenciar sobremaneira a todos - moldando toda uma nova maneira de entender o mundo e de fazer parte do mundo. Isso também afeta os religiosos. "Nem tudo está errado", começam a dizer alguns. Dá-se início a uma "consideração do que é bom e do que é ruim". Aqui os religiosos começam a flertar com o que é considerado "do mundo".

Terceiro Passo - O que é do diabo começa a ser trazido para dentro do grupo religioso, mas com muito cuidado, bem devagarzinho... Novas práticas são produzidas. "Sim, nós podemos usar isso para anunciar a salvação aos pecadores". É a chamada "estratégia santa". Quem segue as novidades é visto pelos tradicionais como "herege" ou rotulado de "mundano". Muitos são perseguidos e expulsos por "darem ouvido ao demônio", e alguns chegam mesmo a serem mortos pelos representantes da "doutrina oficial".

Quarto Passo - Mas nada como o tempo para alimentar e fazer crescer uma heresia... O que antes era visto com maus olhos e com grande suspeita, agora começa a ser visto com bons olhos (principalmente porque "muitos morreram por essa verdade" - esse estranho argumento exerce uma influência surpreendente). Agora dá-se início a uma nova leitura: "Há muita semelhança entre o que cremos e com o que os de fora acreditam. Só precisamos separar uma coisa da outra." Isso até que vai bem na primeira geração de crentes; mas já na segunda, a separação "de uma coisa da outra" deixa de existir: a linha de distinção se perde, o que estava fora agora está dentro; o que era estranho ao corpo, agora faz parte.

Quinto Passo - É consolidada como "mistério de Deus" o que antes era visto como sendo do diabo. Os crentes que outrora foram perseguidos, expulsos ou mortos (porque eram tidos como hereges), agora são beatificados e canonizados pelos filhos dos assassinos. E aqui cria-se toda uma nova linguagem teológica para que a "nova visão" seja adaptada no seio da ortodoxia. O texto sagrado passa a ser traduzido tendo em vista à nova interpretação. Novos textos surgem para explicar o tal "mistério".

Sexto Passo - Começa-se a proclamar que essa nova teologia sempre foi a original, mas que, por conta da dureza de coração e "da ignorância daquele tempo", muitos não viram a luz. Nesse passo, é muito oportuno citar algum ou outro versículo bíblico para confirmar 'a presente verdade'. Que tal este? "A luz do justo é como a aurora, vai brilhando mais e mais até chegar o dia perfeito" - Provérbios 4:18.

Sétimo Passo - Se algum incrédulo apontar o dedo dizendo que tal falar fora dito pelos antigos pagãos, pelos incrédulos e infiéis, é só encarnar o Santo Agostinho:

- As verdades anunciadas pelos pagãos não devem ser temidas, mas reclamadas deles como de injustos possuidores. Tudo que é bom e verdadeiro pertence ao nosso Deus e a nós, os seus filhos.

Pronto. Agora é só passar óleo de peroba.


Paz do Pinóquio

domingo, 31 de julho de 2011

Não me venha com esse "está escrito"!

Aviso necessário: Esse texto não se presta a fazer apologia de certos crentes que confundem a Graça com libertinagem.

Eu penso - opinião minha, pessoal e intransferível - que há várias passagens na Bíblia que legitimam o machismo, assim como há várias passagens que legitimam o racismo, a homofobia e a xenofobia. Mas, por incrível que possa parecer, isso de dizer "está escrito" não é motivo plausível - e estou falando a partir do próprio tecido escriturístico - para condenar o que quer que se seja. E por quê não? Vejamos.

Cada um dos profetas disseram "em nome do Senhor", mas eles se opunham, na prática pessoal, ao "está escrito". Exemplos:

1) Sim, está escrito que não se deve tocar - e nem permitir ser tocado! - por uma prostituta (Levítico 7:21; Lucas 7:37 a 39). Aliás, não se deve tocar nem num objeto que foi tocado por uma prostituta! Mas o profeta Oséias tomou pra si uma prostituta e teve filhos com ela. E isso ele fez "a mando do Senhor" - Oséias 1:2.

2) Sim, está escrito que não se pode mostrar a nudez ( Êxodo 20:26). Mas o profeta Isaías andou durante três anos pelado pregando "a palavra"! - Isaías 20:3, 4.

3) Sim, está escrito que Moisés recebeu de Deus a ordem para sacrificar holocaustos quando o povo saísse do Egito (Êxodo 10:25). Mas o profeta Jeremias afirmou que isso era uma grossa mentira! - Jeremias 7:22.

Só pra ficar nesses três exemplos. Alguém acha mesmo estranho que os profetas tenham sido perseguidos e mortos pela adeptos da "teologia oficial"? E o incrível é que depois as vozes desses profetas foram incluídas no Cânon! O que isso mesmo nos ensina? Que a fé não se prende a escritos sagrados. Então que papel estamos fazendo ao apontarmos versículos bíblicos para dizer que Deus condena comer strogonoff ? - Êxodo 23:19.

E vamos a mais um exemplo:

- Sim, está escrito que camelo é um animal abominável (Levítico 11:4), mas João Batista veio anuciando a "palavra do Senhor" vestido com pêlo de camelo! - Mateus 3:4.

Ora, o arauto de Jesus dito Cristo era um pecador aos olhos dos fariseus. Qualquer um poderia apontar as Escrituras para provar que João Batista era herege e pecador, não poderia? Sim, mas...

A fé é progressiva. O intérprete que pensa que Deus se fixou num livro sagrado, ainda nem entendeu a razão do existir das Escrituras.


Paz dos profetas